Término

Sexta feira, dia 24 de fevereiro de 2012. Ela acorda como se num pesadelo. A cabeça pesada, um sino de igreja badalando dentro do cérebro solto na caixa craniana. A boca seca, amarga, os olhos inchados desesperados pela cor. Tudo é escuro, ela sente frio, sente medo. O coração não sabe mais se bate forte ou se desiste de uma vez. Um estado melancólico de semi vida, um peso, uma dor preenche tudo, preenche o vazio.

Ao lado da cama, aquela foto do aniversário de um ano de namoro. Os dois felizes, sorridentes, abraçados, de rostos colados, como se nada mais existisse, como se nada mais importasse além dos dois. Ela observa a foto com cuidado, com carinho, aproxima o porta retrato dos olhos como se pudesse entrar pelo vidro e reviver aquele momento. Pelo reflexo embaçado, ela consegue ver o seu rosto na realidade, desolado. Onde foi parar aquele sorriso, aquela atmosfera, onde foi que eu me perdi, onde foi que nos perdemos, a que ponto chegamos, por que está tudo assim…? Que merda eu estou fazendo.

Ela se levanta da cama, prepara um café forte e sem açúcar. Amargo por amargo… Durante algum tempo, caminha pela casa, atônita, passando a mão pelas paredes do corredor, pelas folhas das plantas, pela toalha da mesa da cozinha. Abre a janela da sala. A luz que entra ofusca a sua visão por alguns segundos e aos poucos ela consegue enxergar o sol, o céu azul, escuta um cachorro latindo, uma criança chorando e o som da água da mangueira caindo no chão enquanto a faxineira do prédio lava a calçada. A vida lá fora a invade. Entra pelos poros, atravessa a pele, preenche os pulmões, fortalece os ossos, faz o coração bater sem obrigação, e sim por vontade própria.

Entra debaixo do chuveiro. Escolhe aquele sabonete caro que ganhou no natal mas nunca teve coragem de usar. Espuma os cabelos, esfrega usando força os braços e o colo com bucha vegetal. Lava a alma. Se seca com carinho, passa nas pernas um resto de creme hidratante que restava no pote. Penteia os cabelos e dessa vez não os seca com o secador. Eles vão secar como quiserem. Calça jeans surrada, o all star fudido de sempre e uma camiseta. É assim que ela gosta de estar. É assim que ela gosta de ser ela mesma.

Sobe na moto e vai.

Vai sem rumo, vai sem direção. Segue sempre, segue as curvas, segue as retas, segue o caminho que tem vontade. O tanque cheio, a cabeça se esvaziando. Se libertando a cada quilômetro. Pega a estrada, sai da cidade, sai do asfalto, entra nas trilhas, estrada de terra. Não para nunca até chegar no meio do quase nada. Uma estrada, mato prum lado, mato pro outro, cercas de sítios, borboletas e o sol. Mais nada.

Desce da moto, tira o capacete empoeirado. O rosto está suado, pregado, vermelho. Ela anda com certa dificuldade por dentro do mato até encontrar um pequeno ribeirãozinho, com vista pras montanhas. Tira os tênis e arregassa as calças. Se senta, molha os pés, os braços e o rosto. Sente o sol queimar os ombros deixando neles as marcas da camiseta. Mas fica. Fica ali a tarde toda, e vê através das lágrimas o sol se pôr.

Chegando a noite ela toma o caminho de volta. O tanque esvaziando, a cabeça cheia. Está chegando a hora de fazer o que deve ser feito. Algum tempo depois ela está tocando o interfone da casa do namorado insistentemente. Ele atende às pressas e desce até o portão pelas escadas, pois não tem paciência para esperar o elevador. Já chega lá embaixo aos berros.

– Você está louca, Mariana? Te liguei o dia inteiro, primeiro chamava até desligar e depois as chamadas caíam direto na caixa postal! Passei na sua casa, as janelas todas abertas, toquei interfone até cansar e você não me atendeu! Liguei até pra sua mãe, sabia? Ela está desesperada achando que você foi sequestrada ou se matou, sei lá! Eu contei pra ela que a gente teve uma briga ontem à noite e eu também pensei que você tivesse se matado!

– Você gostaria que eu tivesse feito isso?

– Cala a boca, Mariana! Cala a boca! Eu não quero que você se mate por minha causa, entendeu!? Eu não quero levar essa culpa para o resto da minha vida, como eu vou viver tranquilo levando essa culpa?

– Ah, então o problema é a sua culpa, e não a minha morte…

– O que você está falando, sua louca!? Onde você estava, porque está imunda desse jeito? O que aconteceu com você? – Ele segura os braços dela com força e a sacoleja. – Você me enlouquece, Mariana, você com essas suas crises ainda me deixa louco! Eu não tenho mais paciência pra essas suas crises de loucura! Eu já estou de saco cheio entendeu? Saco cheio de você e de todas as suas coisas…

– Ótimo.

– Oi? – Ele a solta repentinamente.

– Ótimo, Rodrigo.

– Ótimo? O que é ótimo?

– Ótimo você estar de saco cheio de mim e de todas as minhas coisas. Nos últimos quase dois anos foi você a causa de tanto choro, de tanto sofrimento e… de algumas alegrias também. Mas se quando penso em você a primeira coisa que me vem à cabeça é o sofrimento… é porque está tudo mesmo muito errado.

– Não tô entendendo.

– Não tá entendendo porque não tô gritando, não tô berrando, não tô agredindo você.  – A voz dela é firme e suave como um veludo. – Não está me reconhecendo, não é? Esta aqui que está na sua frente é a que você conheceu há quatro anos e não a que você largou chorando na porta de casa ontem à noite. Não sou a que você xingou, traiu, machucou, maltratou e desdenhou nos últimos dois anos. Eu sou a mesma, mesminha pessoa que eu era antes de conhecer você. Só que melhor, pois agora não sou mais tão babaca. – Ela pega no queixo dele com o polegar e o indicador. – Não sou mais tão babaca quanto você. Não sou mais a Mariana louca e problemática que você criou e modelou. Eu sou outra, sou a mesma.

– Então se é assim a gente pode recomeçar. Tentar de novo, Mari.

– Rodrigo, na boa? Posso te falar uma coisa?

– Claro.

– Vá tomar no meio do seu cu.

About marcattibella

Atriz, improvisadora e palhaça de profissão. Metida a escritora. It's a beautiful lie. Ver todos os artigos de marcattibella

10 responses to “Término

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