Recomeçando

Sempre admirei aquelas pessoas que se inspiram a cada esquina. Que andam com um caderninho na bolsa para anotações aleatórias de imagens, ideias, sensações e outras coisas ao longo da jornada. Eu já fui dessas. Escrevia direto, qualquer coisa, pra qualquer pessoa, pra mim mesma, pra quem estava sentado ao meu lado no ônibus e esticava os olhos em cima do meu colo. Eu me inspirava todos os dias. Eu escrevia todos os dias. Eu enxergava poesia nas menores e mais insignificantes coisas.

Aí mudei de cidade. São Paulo é uma cidade cheia de poesia, mas tem que procurar bastante porque a poesia de São Paulo é bem sutil. Ela se esconde atrás dos muros, debaixo dos viadutos, dentro dos shoppings, ela se mescla no cinza e abafado do ar.  A poesia de São Paulo permite dizer até que não existe poesia, mas o desespero das pessoas por sentir, sentir qualquer coisa que seja, bom ou ruim, faz com que a gente a encontre. Onde talvez não exista. Nas baratas que quase sobem nos nossos pés quando andamos pelas ruas ou nos calcanhares rachados dos mendigos da Santa Cecília.

Já são 2 anos e meio morando nessa cidade. Caso de amor e ódio. Do extremo fascínio a desesperadora solidão. Passei por quase tudo desde que cheguei aqui. Tanta coisa acontecendo, tanto movimento, correria, tantos sentimentos abafados no cinza dos dias que a poesia se perdeu. Esqueci de procurar enquanto pagava o aluguel, fazia um teste de VT e terminava o mesmo namoro várias e várias vezes. Deixei de me inspirar. A vida foi passando por mim feito os vagões do metrô, e eu parada na estação sem identificar nenhum rosto, nenhum corpo, nenhuma expressão. Estática. A vida foi correndo na frente e eu fiquei colada no chão sem fazer força. Eu não saía mais do lugar, como num sonho ruim. Fui me tornando mais uma, a mesma de todas, sem nenhum rosto, sem nenhum corpo, sem nenhuma expressão. Eu fui me tornando o povo. Qualquer uma. Menos uma, menos eu a procurar uma beleza que não estava lá. Me perdi de mim. E qualquer um poderia me encontrar enfurnada na minha kitnet empoeirada, sem almoço e sem vontade.

Eu precisava fazer alguma coisa. Mas não sabia o quê. Quando. Onde. Por quê. Eu não queria nada.

Foi depois de noites muito divertidas com amigos incríveis (e insistentes) que eu comecei a acordar. Tequila e funk ressuscitam qualquer defunto, fiquem sabendo. Fiz coisas que jamais faria, que jamais pensei em fazer, ou que sempre quis fazer mas nunca tive coragem. Sem me julgar, sem me culpar, sem me entender. Passava o dia seguinte botando as tripas pra fora e tratando de digerir essa nova versão de mim que estava nascendo. Fui me reconhecendo na mesma essência, porém numa versão muito melhor. Mais livre, mais madura, mais preparada, mais consciente. Um processo longo, intenso, forte, necessário e muito especial. Eu comecei a me tornar minha melhor companhia e o espelho de mim mesma…

Foi aí que nem precisei mais procurar a poesia nos cantinhos, ela veio cantando Fat Family no meio do meu caminho. Ela veio num espetáculo maravilhoso, num café super agradável cheio de ideias fantásticas. Ela veio no dia do meu aniversário falando de um filme incrível. Ela veio em forma de mandalas coloridas, jantares de família, declarações de amor e ukulele. Ela veio num par de olhos azuis. Ela veio em abraços apertados, conversas intermináveis de whatsapp. Ela veio em novas ideias, novas vontades, novos planos. Ela veio me cutucar hoje, me pedindo pra tentar ligar o computador que está mais pra lá do que pra cá pra escrever um pouquinho ouvindo o som do tec tec do teclado. E está feliz da vida que deu certo.

Foi aí que eu aprendi. A poesia não depende mais do lugar, não depende mais de fora. A poesia está em mim. Eu sou a poesia. A minha melhor inspiração para todos os meus dias. E não tô nem aí se é clichê.

bolhas e corações

 

About marcattibella

Atriz, improvisadora e palhaça de profissão. Metida a escritora. It's a beautiful lie. Ver todos os artigos de marcattibella

4 responses to “Recomeçando

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